Quando falamos da derrota de Hitler e do fim do nazismo, o imaginário popular — moldado, em grande parte, por Hollywood e pela narrativa ocidental — costuma colocar o desembarque aliado na Normandia, em 1944, como o grande divisor de águas da Segunda Guerra Mundial. No entanto, a história verdadeira, aquela que o sangue e o frio da realidade escreveram, aponta para o front oriental. Foi na Rússia — ou melhor, na União Soviética —, que o nazismo começou a ruir.
Hitler acreditava que poderia esmagar os soviéticos em poucos meses. Lançou, em junho de 1941, a Operação Barbarossa, a maior invasão militar da história. Apostou no elemento surpresa, na brutalidade e no poderio de suas forças. Mas subestimou o povo russo, a vastidão do território e a fúria do inverno.
A resistência soviética foi épica. Em batalhas como Stalingrado e Kursk, o exército vermelho não apenas segurou o avanço alemão, mas virou o jogo. O cerco de Stalingrado, em especial, foi o ponto de inflexão: ali, Hitler sofreu sua primeira grande, e irrecuperável, derrota militar. Dali em diante, os alemães só recuaram. A máquina de guerra nazista, até então invencível, começou a desmoronar.
Em números frios e brutais: mais de 80% das perdas alemãs na guerra aconteceram no fronte oriental. Enquanto os exércitos ocidentais combatiam milhares de soldados alemães, os soviéticos enfrentavam milhões. A URSS perdeu, segundo estimativas, cerca de 27 milhões de vidas entre militares e civis — um preço impensável para qualquer outro país.
Ignorar essa contribuição colossal é não apenas um erro histórico, mas uma injustiça moral. Sem o sacrifício imenso dos russos e dos demais povos soviéticos, o “Reich de mil anos” poderia ter durado bem mais do que uma década.
É importante reconhecer o papel dos aliados ocidentais, claro. O Dia D foi crucial. Os bombardeios estratégicos enfraqueceram o esforço de guerra alemão e o apoio logístico ajudou os soviéticos. Mas é inegável: o monstro nazista foi mortalmente ferido em solo russo.
Hoje, num mundo cada vez mais dividido e propenso a narrativas convenientes, recordar o que realmente aconteceu é um ato de honestidade histórica. A liberdade que celebramos — o direito de viver sem o jugo de uma ideologia assassina — foi conquistada, em grande parte, pelos que resistiram nas estepes geladas do Leste.
Devemos, sim, aos russos, o fim do nazismo. E devemos à verdade o respeito por essa memória.