O debate sobre o fim da escala 6×1 escancarou uma velha estratégia da política brasileira: dividir quem produz. De um lado, o empregado. Do outro, o empregador. Enquanto ambos se enfrentam em uma disputa alimentada por paixões e narrativas ideológicas, o verdadeiro peso que sufoca a economia brasileira permanece, mais uma vez, fora do centro da discussão.
É impossível negar que milhões de trabalhadores convivem com jornadas desgastantes, baixos salários e pouco tempo para a família. Essa é uma realidade que merece atenção e respostas. Da mesma forma, é impossível ignorar que milhares de empresários — sobretudo pequenos e médios — enfrentam diariamente uma carga tributária elevada, uma burocracia asfixiante, insegurança jurídica e um ambiente de negócios que frequentemente penaliza quem investe, produz e gera empregos.
A pergunta que deveria orientar esse debate é simples: quem realmente ganha quando patrões e empregados passam a se enxergar como inimigos?
Certamente não ganha o trabalhador, que perde oportunidades quando empresas reduzem contratações, fecham as portas ou deixam de crescer. Tampouco ganha o empresário, que vê seus custos aumentarem em um cenário econômico já pressionado por impostos, encargos e baixa produtividade. Ambos acabam pagando uma conta que, em grande medida, é produzida por um Estado caro, complexo e pouco eficiente.
Não se trata de defender a manutenção da escala 6×1 a qualquer custo, nem de rejeitar a necessidade de jornadas mais humanas. O mundo do trabalho mudou, e as leis precisam acompanhar essa transformação. Mas qualquer mudança séria exige responsabilidade, diálogo e uma análise ampla de seus impactos econômicos e sociais. Direitos precisam caminhar ao lado da sustentabilidade das empresas, pois sem empresas saudáveis não há empregos duradouros.
O que causa estranheza é a ausência de um debate igualmente intenso sobre a reforma tributária, a simplificação das obrigações burocráticas, a redução do custo de contratação e a melhoria da eficiência do gasto público. Exige-se mais de quem produz, mas discute-se muito pouco o tamanho da estrutura estatal que consome uma parcela expressiva da riqueza gerada pela sociedade.
O Brasil precisa abandonar a lógica do confronto permanente. Empregador e empregado não são adversários naturais. Um depende do outro para prosperar. A riqueza não nasce do conflito; nasce do trabalho, do investimento, da inovação e da confiança.
Talvez esteja aí a maior distorção desse debate. Enquanto brasileiros que acordam cedo para trabalhar e brasileiros que arriscam seu patrimônio para empreender são colocados em trincheiras opostas, o verdadeiro desafio — construir um Estado mais eficiente, menos burocrático e que imponha menor custo à produção — continua sendo tratado como tema secundário.
O país não precisa de mais uma guerra entre quem trabalha e quem gera empregos. Precisa de uma aliança entre ambos para enfrentar aquilo que realmente impede o crescimento nacional: um sistema que, há décadas, torna caro produzir, caro empregar e caro viver.
Enquanto insistirmos na guerra errada, continuaremos adiando a discussão que realmente importa.