DESDE 2013

‘O Brasil tem medo de ser o que é’

Há uma diferença profunda entre governar um país e apenas administrar o poder. O Brasil, infelizmente, parece ter abandonado a primeira missão para dedicar-se quase exclusivamente à segunda. Perdemos a capacidade de pensar como nação. O debate público foi sequestrado pela polarização, pelas disputas eleitorais e pelos interesses de grupos que tratam o Estado como um instrumento de poder, e não como um instrumento de transformação social.

Não faltam projetos de governo. Sobram projetos de poder. O que desapareceu foi um verdadeiro projeto de nação.

Nas últimas décadas, poucos líderes ousaram pensar o Brasil para além de um mandato. Entre eles, o saudoso Leonel Brizola se destacou por defender um país que colocava a educação pública como prioridade absoluta, compreendendo que nenhuma nação alcança desenvolvimento sustentável sem investir na inteligência de seu povo. Concorde-se ou não com suas posições políticas, havia em Brizola algo cada vez mais raro na vida pública: uma visão estratégica de Brasil.

Hoje, a política parece ter como horizonte apenas a próxima eleição. Discute-se quem ganhará o próximo pleito, quem ocupará Ministérios, quem fará a próxima aliança. Quase ninguém discute qual país queremos construir para nossos filhos e netos.

Enquanto isso, permanecemos presos a um modelo econômico que exporta matérias-primas e importa tecnologia. Vendemos commodities e compramos conhecimento. Exportamos riqueza natural e importamos inovação. Continuamos dependentes de um modelo que gera crescimento para alguns setores, mas não produz desenvolvimento tecnológico, industrial e intelectual capaz de transformar a vida da maioria da população.

Sem uma revolução na educação, na pesquisa científica, na inovação e na formação de capital humano, continuaremos ocupando um lugar secundário no cenário mundial. O futuro pertence às nações que produzem conhecimento, e não apenas às que extraem riquezas da terra.

A saúde pública continua enfrentando enormes desafios. A segurança pública parece sempre correr atrás da criminalidade. A infraestrutura avança lentamente. A desigualdade permanece como uma das maiores do mundo. E, apesar de tudo isso, a pauta política frequentemente gira em torno de interesses imediatos, disputas partidárias e estratégias eleitorais.

Outro fator que alimenta a descrença da sociedade é a distância entre a realidade da população e a de parte da classe política. Milhões de brasileiros trabalham honestamente durante toda a vida, pagam impostos, produzem riqueza e, mesmo assim, encontram enormes dificuldades para pagar as despesas básicas, adquirir uma casa própria ou garantir um futuro mais tranquilo para seus filhos.

Ao mesmo tempo, é impossível ignorar a percepção de que muitos agentes públicos encerram seus mandatos com patrimônios muito superiores aos declarados no início da vida política. É evidente que toda evolução patrimonial pode ocorrer de forma absolutamente lícita. Mas justamente por isso a transparência, a fiscalização e a prestação de contas são indispensáveis para fortalecer a confiança da sociedade nas instituições e assegurar que o interesse público permaneça acima de qualquer interesse privado.

O Brasil não é um país pobre. É uma das nações mais ricas do planeta em recursos naturais, biodiversidade, capacidade agrícola, matriz energética e potencial humano. O que nos falta não são riquezas. O que nos falta é um pacto nacional capaz de transformar essas riquezas em prosperidade compartilhada.

Precisamos voltar a sonhar com um projeto de nação que sobreviva aos governos e aos partidos; um projeto que coloque a educação como prioridade absoluta; que fortaleça a saúde pública; que enfrente a violência com inteligência; que invista pesadamente em ciência, tecnologia, inovação, industrialização e produtividade; que valorize o mérito, a ética e o trabalho; e que devolva ao cidadão a esperança de que o esforço honesto será recompensado.

O Brasil não precisa apenas de novos governantes. Precisa de estadistas. Homens e mulheres capazes de pensar além do próximo mandato, além da próxima eleição e além dos próprios interesses.

Recordo, por fim, o saudoso Marlan Rocha, de Barreiras (BA), defensor incansável da criação do Estado do Rio São Francisco. Em uma frase simples e profundamente atual, ele resumiu um dos maiores dilemas nacionais: “O Brasil tem medo de ser o que é.” Talvez esteja aí nossa maior tragédia. Somos uma potência que insiste em comportar-se como promessa. Um gigante que ainda não teve coragem de despertar para a grandeza que o seu povo merece.

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