DESDE 2013

Em virada histórica, Lula conquista quarto mandato, recebe apoio internacional e inicia articulações para enfrentar desafios econômicos e políticos

Brasília, 25 de outubro de 2026 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conquistou, no domingo (25), um feito inédito na história política brasileira ao ser eleito pela quarta vez para a Presidência da República. Em uma disputa acirrada contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), Lula protagonizou a primeira virada eleitoral em um segundo turno presidencial no país, revertendo a desvantagem registrada na primeira etapa da votação.

Com 64,2 milhões de votos, o equivalente a 51,79% dos votos válidos, Lula superou Flávio Bolsonaro, que recebeu 59,8 milhões de votos (48,21%). A diferença de aproximadamente 4,4 milhões de votos garantiu ao petista um novo mandato, com início em 5 de janeiro de 2027.

A vitória representou uma reversão do cenário registrado no primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro liderou a disputa com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Até então, nenhum candidato à Presidência havia conseguido reverter uma desvantagem na primeira votação e vencer o segundo turno.

Além do caráter inédito da virada, Lula ampliou seu próprio recorde de votação nominal, superando os cerca de 60 milhões de votos obtidos em 2022. O resultado também confirmou a persistência da polarização política no país, embora o presidente reeleito tenha ampliado sua vantagem em relação à disputa anterior, quando derrotou Jair Bolsonaro por aproximadamente 2,1 milhões de votos.

Aos 81 anos, completados nesta terça-feira (27), Lula se prepara para iniciar um novo ciclo à frente do Palácio do Planalto, após governar o país entre 2003 e 2010 e retornar à Presidência em 2023.

Reeleição recebe cumprimentos de líderes mundiais de diferentes orientações políticas

A vitória de Lula provocou uma ampla repercussão internacional, com manifestações de chefes de Estado, de governo e de organismos multilaterais. As mensagens destacaram a importância das relações diplomáticas com o Brasil, a cooperação econômica, o multilateralismo e a integração regional.

Na América Latina, chamou a atenção o reconhecimento do resultado por presidentes identificados com a direita e a centro-direita, apesar das diferenças ideológicas com o brasileiro.

O presidente do Chile, José Antonio Kast, telefonou para Lula e destacou as perspectivas de cooperação entre os dois países, especialmente na integração econômica e no combate ao crime organizado. Na mesma linha, a presidente do Peru, Keiko Fujimori, parabenizou o petista e reafirmou o interesse no fortalecimento da aliança estratégica, da integração regional e da cooperação para o desenvolvimento sustentável da Amazônia.

Na Colômbia, o presidente Abelardo de la Espriella reconheceu a vontade expressa nas urnas e defendeu que o respeito mútuo e a soberania orientem as relações bilaterais. Também enviaram felicitações os presidentes Daniel Noboa, do Equador; Santiago Peña, do Paraguai; e Rodrigo Paz, da Bolívia, ressaltando a importância da cooperação para enfrentar desafios comuns.

Entre os governos de esquerda e centro-esquerda, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, comemorou o resultado e destacou a democracia brasileira. O presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, informou ter conversado com Lula para parabenizá-lo, enquanto o cubano Miguel Díaz-Canel classificou a vitória como histórica.

As manifestações também vieram da Europa e de importantes parceiros comerciais. O presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu o aprofundamento da parceria estratégica entre França e Brasil. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, celebrou o resultado, enquanto a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, destacou a defesa da democracia e do multilateralismo.

China e Rússia também reconheceram a reeleição. Pequim reiterou seus cumprimentos ao presidente brasileiro, enquanto Moscou ressaltou a importância de Lula para o fortalecimento das relações bilaterais e da cooperação no âmbito do Brics. Lideranças da Índia, África do Sul e Canadá também manifestaram interesse em ampliar as parcerias com o Brasil.

Em contraste, até a segunda-feira (26), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente da Argentina, Javier Milei, não haviam divulgado mensagens públicas de congratulação.

A diversidade das manifestações reforça a relevância diplomática e econômica do Brasil e evidencia a expectativa de continuidade das relações internacionais, mesmo entre governos de orientações políticas distintas.

Lula recebe Motta e Alcolumbre e inicia articulação com o Congresso

No cenário doméstico, a primeira agenda política de destaque após a reeleição ocorreu na segunda-feira (26), quando Lula recebeu, no Palácio da Alvorada, os presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União-AP).

O encontro, realizado um dia após o segundo turno, teve caráter institucional e representou o primeiro contato formal dos chefes do Legislativo com o presidente reeleito após a confirmação do resultado.

Em manifestação nas redes sociais, Motta destacou a importância do diálogo, do respeito institucional e do trabalho conjunto entre os Poderes para o avanço das pautas nacionais.

Alcolumbre, por sua vez, reafirmou o compromisso do Senado com a construção de entendimentos, ressaltando que Câmara e Senado continuarão atuando com independência e responsabilidade. “Os brasileiros esperam de nós resultados. Temos muito trabalho pela frente”, declarou o presidente do Congresso Nacional.

A aproximação ocorre em um contexto no qual a governabilidade dependerá da capacidade do Palácio do Planalto de construir consensos com partidos de centro e centro-direita, diante de um Congresso com expressiva representação dessas forças políticas.

Embora a reunião tenha sido de cortesia, o gesto sinaliza a disposição das cúpulas do Executivo e do Legislativo em preservar canais de interlocução. Essa relação será relevante tanto para a conclusão das votações de 2026 quanto para a organização da agenda legislativa do próximo mandato.

Entre os temas que exigirão negociação estão a implementação da reforma tributária, a revisão de despesas públicas, o Orçamento da União e as propostas econômicas e sociais apresentadas durante a campanha eleitoral.

Contas públicas e desaceleração econômica estão entre os principais desafios do quarto mandato

Superada a disputa eleitoral, o governo terá de conciliar as promessas de campanha com um cenário econômico marcado pelo elevado endividamento público, pela perspectiva de desaceleração da atividade e pela pressão sobre o orçamento das famílias.

O equilíbrio das contas públicas desponta como uma das questões centrais para o início do novo mandato. Segundo dados do Banco Central referentes a agosto, a dívida bruta do governo geral atingiu R$ 11,1 trilhões, equivalentes a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), maior patamar relativo desde a pandemia.

O cenário amplia a cobrança de economistas e agentes do mercado financeiro por medidas capazes de estabilizar a trajetória da dívida e recuperar a confiança na política fiscal. A avaliação é de que a deterioração das contas públicas pode manter os juros elevados, restringir investimentos e limitar o crescimento econômico.

Durante a campanha, Lula defendeu a expansão da atividade econômica e da arrecadação como instrumentos para melhorar os indicadores fiscais, sem assumir compromissos específicos de redução de despesas. Ao mesmo tempo, anunciou medidas sociais e econômicas com potencial de ampliar gastos e reduzir receitas.

Segundo estimativa da Warren Investimentos, divulgada pela BBC News Brasil, o conjunto de propostas eleitorais teria impacto fiscal próximo de R$ 200 bilhões até 2030, antes mesmo da inclusão da proposta de gratuidade do transporte público nos fins de semana.

Para o economista Felipe Salto, ex-diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, o governo precisará apresentar um plano objetivo para as contas públicas logo no início do mandato. Ele defende que um eventual ajuste seja gradual, para evitar efeitos excessivamente negativos sobre a atividade econômica.

Entre as medidas discutidas por especialistas estão a revisão de despesas obrigatórias, a redução de benefícios tributários, alterações nas regras de vinculação de gastos e maior controle sobre o crescimento das despesas públicas. Parte dessas iniciativas, contudo, dependeria de alterações legislativas e enfrentaria resistências políticas e setoriais.

O desafio fiscal será agravado pela perspectiva de menor crescimento econômico. No boletim Focus divulgado antes do segundo turno, a mediana das expectativas do mercado apontava expansão de 1,83% do PIB em 2026 e de 1,32% em 2027. Alguns economistas trabalham com a possibilidade de crescimento próximo de 1% no próximo ano.

Além da redução dos estímulos fiscais adotados no período eleitoral, a atividade econômica deverá continuar pressionada pelos juros elevados e pela perspectiva de dificuldades na agropecuária, em razão dos efeitos climáticos associados ao fenômeno El Niño.

Para estimular o crescimento, Lula pretende manter políticas de indução estatal ao investimento privado, com iniciativas como a Nova Indústria Brasil, uma nova etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o Plano de Transformação Ecológica.

A estratégia também contempla o fortalecimento do mercado interno, a valorização salarial e a ampliação das linhas de crédito destinadas às micro, pequenas e médias empresas.

Custo de vida e endividamento das famílias exigirão respostas

Outro desafio relevante será melhorar a percepção da população sobre as condições econômicas, especialmente em relação ao preço dos alimentos, ao poder de compra e ao endividamento das famílias.

Embora tenha ocorrido recuperação parcial do poder aquisitivo nos últimos anos, o custo de vida permanece como uma preocupação para parcela expressiva da população. Levantamento da consultoria 4intelligence aponta que, em setembro de 2026, o salário mínimo de R$ 1.621 permitia adquirir aproximadamente 1,76 cesta básica, acima das 1,61 cesta de setembro de 2022, mas abaixo do patamar superior a duas cestas observado em 2019.

O endividamento também segue elevado. Segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 81,7% das famílias brasileiras estavam endividadas em setembro, apesar da primeira queda do indicador no ano.

Para enfrentar esse cenário, Lula apresentou durante a campanha propostas como a ampliação do programa Desenrola, o perdão de dívidas de microempreendedores individuais, medidas relacionadas às apostas eletrônicas e políticas para reduzir o custo de alimentos e energia.

A nova versão do Desenrola prevê a negociação de carteiras de crédito com descontos que poderiam chegar a 90%, com a meta anunciada de renegociar até R$ 150 bilhões em dívidas até meados de 2028.

Economistas, contudo, avaliam que programas de renegociação, embora possam produzir alívio financeiro imediato, não resolvem isoladamente as causas estruturais do endividamento. Para isso, apontam a necessidade de redução sustentável dos juros, aumento da produtividade e recuperação da renda disponível das famílias.

Governabilidade e responsabilidade fiscal definirão os rumos do novo mandato

Além das questões econômicas, Lula terá o desafio de administrar um ambiente político ainda polarizado e de construir uma base parlamentar capaz de sustentar as principais iniciativas do Executivo.

A composição do Congresso Nacional, com participação expressiva de partidos de direita e centro-direita, exigirá negociações permanentes, especialmente em temas que envolvam restrições orçamentárias, revisão de benefícios fiscais e alterações nas regras de despesas obrigatórias.

O relacionamento com os presidentes da Câmara e do Senado, iniciado com a visita ao Palácio da Alvorada, poderá desempenhar papel importante nessa articulação. Entretanto, a disposição institucional para o diálogo não elimina divergências de interesses entre o governo, os partidos e as bancadas parlamentares.

Também será necessário conciliar as prioridades sociais defendidas durante a campanha com as limitações fiscais e as expectativas de maior previsibilidade econômica.

A escolha da equipe econômica para o próximo mandato e a apresentação de medidas concretas para o controle das contas públicas estarão entre os primeiros sinais observados por investidores, empresários e lideranças políticas.

O quarto mandato começa, portanto, sob duas condições distintas: de um lado, Lula chega fortalecido por uma vitória eleitoral inédita, pelo recorde de votação e pelo reconhecimento de lideranças internacionais; de outro, terá de responder a desafios fiscais e econômicos que demandam decisões potencialmente impopulares e articulação com um Congresso de perfil político heterogêneo.

Transformar a vitória nas urnas em capacidade de governar, equilibrando responsabilidade fiscal, crescimento econômico e compromissos sociais, será um dos principais testes do novo mandato presidencial.

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