Levantamento da Consillium aponta que partidos de direita ocuparão mais da metade das cadeiras da Câmara e do Senado a partir de 2027. Com uma base de apoio consistente de apenas 124 deputados e 16 senadores, presidente reeleito terá de negociar com partidos de centro e centro-direita para aprovar sua agenda legislativa.
Brasília, 28 de outubro de 2026 – A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para um quarto mandato ocorreu em paralelo ao fortalecimento dos partidos de direita no Congresso Nacional. A nova composição da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, definida pelas eleições de outubro, aponta para um cenário de maior dificuldade na articulação política do Executivo, especialmente no Senado, onde a oposição ampliou significativamente sua representação.
Levantamento elaborado pela Consillium, com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do Congresso Nacional e do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), indica que os partidos classificados à direita ocuparão 260 das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados (50,7%) e 48 das 81 cadeiras do Senado (59,3%) a partir de fevereiro de 2027.
Embora a correlação de forças na Câmara não tenha sofrido alterações tão profundas em relação à legislatura atual, o resultado do Senado representa uma mudança mais expressiva, impulsionada principalmente pelo crescimento do Partido Liberal (PL).
A legenda ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro e ao candidato presidencial derrotado Flávio Bolsonaro conquistou as maiores bancadas das duas Casas, com 121 deputados federais e uma projeção inicial de 28 senadores, ampliando sua capacidade de influência sobre a agenda legislativa e as negociações institucionais.
Direita terá maioria absoluta nas duas Casas do Congresso
A classificação ideológica utilizada no levantamento, baseada em critérios do DIAP, distribui os partidos entre esquerda, centro-esquerda, centro, centro-direita e direita.
Na Câmara dos Deputados, os partidos de direita — PL, PP, União Brasil, Republicanos, Novo e Missão — reunirão 260 cadeiras, número ligeiramente superior à maioria absoluta de 257 parlamentares.
As legendas de centro-direita, compostas por PSD, Podemos, PSDB e Cidadania, somarão outras 81 cadeiras, equivalentes a 15,8% da Câmara. Juntos, os dois segmentos alcançarão 341 deputados, ou 66,5% da Casa.
No campo oposto, esquerda e centro-esquerda terão 124 deputados (24,2%), enquanto os partidos classificados ao centro ocuparão 48 cadeiras (9,4%).
No Senado Federal, a predominância da direita será ainda mais expressiva. Conforme a projeção inicial da Consillium, esse segmento reunirá 48 senadores, correspondentes a 59,3% das cadeiras, superando a maioria absoluta de 41 parlamentares.
A centro-direita contará com nove senadores (11,1%), enquanto esquerda e centro-esquerda somarão 15 representantes (18,5%). O centro terá oito parlamentares (9,9%), além de um senador sem filiação partidária.
A distribuição representa um desafio para o governo Lula, mas a classificação ideológica não significa necessariamente alinhamento automático nas votações. Partidos de direita e centro-direita que participam ou mantêm interlocução com o governo poderão apoiar determinadas matérias, assim como legendas formalmente vinculadas à base poderão apresentar divergências em temas específicos.

PL amplia protagonismo e passa a liderar Câmara e Senado
O principal destaque das eleições legislativas foi o crescimento do PL, que ampliou sua bancada na Câmara de 99 deputados eleitos em 2022 para 121 em 2026, passando a ocupar 23,6% das cadeiras.
A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, conquistou a segunda maior representação, com 88 deputados. Na sequência aparece a Federação União Progressista, composta por União Brasil e PP, com 87 parlamentares.
PSD, Republicanos e MDB também manterão bancadas relevantes, respectivamente com 43, 41 e 36 deputados.
O crescimento do PL foi ainda mais significativo no Senado. A legenda conquistou 19 das 54 vagas disputadas e alcançou inicialmente uma projeção de 28 senadores, a maior bancada partidária da Casa desde a redemocratização.
Essa concentração de cadeiras confere ao partido capacidade de apresentar, sem depender de outras legendas, propostas de emenda à Constituição e requerimentos para criação de comissões parlamentares de inquérito (CPIs), instrumentos que exigem a assinatura de pelo menos um terço dos integrantes do Senado, ou 27 parlamentares.
O partido, entretanto, não terá votos suficientes para aprovar sozinho propostas constitucionais, que necessitam do apoio de 49 senadores, nem para controlar isoladamente a eleição para a presidência da Casa, que exige maioria absoluta de 41 votos.
Além das matérias legislativas, o Senado terá atribuições de grande relevância institucional, como a análise de indicações presidenciais para tribunais superiores e órgãos de controle, bem como competências relacionadas à fiscalização do Executivo e ao processamento de autoridades nos casos previstos na Constituição.

Base de apoio consistente de Lula será inferior a um quarto da Câmara
Apesar da predominância ideológica da direita, a formação de maiorias parlamentares dependerá da disposição de cada partido para negociar com o Executivo.
Nesse cenário, a Consillium utilizou referências do DIAP para classificar as legendas em três grupos: apoio consistente ao governo, apoio condicionado e oposição.
Na Câmara dos Deputados, o núcleo de apoio consistente ao presidente Lula será formado por 124 parlamentares, equivalentes a 24,2% das cadeiras. O grupo reúne os partidos da Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV), a Federação PSOL-Rede, o PSB e o PDT.
Os partidos classificados como oposição somarão 143 deputados (27,9%), distribuídos entre PL, Federação PSDB-Cidadania, Novo e Missão.
O maior agrupamento estará no campo do apoio condicionado, com 246 deputados, ou 48% da Casa. Integram esse segmento União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, Podemos, PRD, Solidariedade e Avante.
A situação será ainda mais delicada no Senado, onde o governo contará com apenas 16 parlamentares no campo do apoio consistente (19,8%). A oposição terá 34 senadores (42%), enquanto outros 31 integrantes (38,3%) estarão no grupo de apoio condicionado.
A diferença entre a base de apoio permanente e a maioria necessária para aprovar matérias evidencia o peso das negociações com as legendas intermediárias.
Na Câmara, Lula precisará conquistar o apoio de pelo menos 133 deputados além de sua base consistente para alcançar a maioria absoluta de 257 votos. No Senado, serão necessários outros 25 votos para atingir o mínimo de 41 parlamentares.
Para aprovar propostas de emenda à Constituição, que exigem três quintos dos votos em dois turnos, o governo precisará construir maiorias ainda mais amplas: 308 deputados e 49 senadores.
Centrão continuará decisivo para a governabilidade
A distribuição partidária indica que a governabilidade do quarto mandato dependerá, em grande medida, da capacidade de articulação com os partidos tradicionalmente associados ao Centrão.
Embora esses agrupamentos tenham perdido parte de sua representação em relação à composição atual da Câmara, continuarão concentrando quase metade das cadeiras e ocuparão posição estratégica para a formação de maiorias.
Caso consiga reunir o apoio dos partidos classificados como condicionados, a base potencial do governo alcançará 370 deputados e 47 senadores.
Na Câmara, essa composição seria suficiente para aprovar projetos ordinários, medidas provisórias e propostas de emenda à Constituição, desde que haja coesão e presença dos parlamentares nas votações.
No Senado, entretanto, mesmo a adesão integral desse grupo deixaria o governo dois votos abaixo dos 49 necessários para aprovar uma PEC.
O cenário confere aos partidos de centro e centro-direita capacidade de negociação sobre prioridades legislativas, composição ministerial, distribuição de relatorias e presidências de comissões, além das discussões orçamentárias e da execução de emendas parlamentares.
A importância desse grupo também deverá se refletir na relação do Palácio do Planalto com os presidentes das duas Casas, especialmente na organização das pautas e na construção de acordos capazes de viabilizar votações de maior complexidade.
Comparação histórica indica redução da base de apoio permanente do governo
A dimensão do desafio fica mais evidente na comparação com os governos anteriores.
Segundo o levantamento da Consillium, baseado em referências do DIAP, o governo Jair Bolsonaro contou com uma base de apoio consistente de 257 deputados e 37 senadores.
No terceiro mandato de Lula, iniciado em 2023, esse núcleo foi estimado em 140 deputados e 17 senadores.
Para a legislatura que começará em 2027, a projeção é de 124 deputados e 16 senadores, representando uma redução de 16 cadeiras na Câmara e uma no Senado em relação à referência utilizada para o atual governo.
Os números indicam uma base permanente mais restrita, embora não representem necessariamente a quantidade de votos que o Executivo conseguirá reunir em cada matéria.
Na prática, o resultado das votações dependerá do conteúdo das propostas, da posição das lideranças partidárias, dos interesses regionais e setoriais e das negociações conduzidas pelo governo.
Senado deve concentrar os maiores desafios políticos do novo mandato
Embora o Palácio do Planalto tenha experiência na formação de maiorias com partidos de diferentes orientações políticas, a nova configuração do Senado poderá impor obstáculos adicionais.
O crescimento da representação do PL amplia a capacidade da oposição de promover debates e iniciativas relacionadas à atuação do Supremo Tribunal Federal, à fiscalização das políticas governamentais e à condução da agenda econômica.
A disputa pela presidência do Senado, prevista para fevereiro de 2027, também será um elemento central desse cenário. O comando da Casa exerce influência relevante na definição das prioridades legislativas, na tramitação de matérias e no funcionamento institucional do Congresso.
Para o presidente Lula, a necessidade de negociação será particularmente relevante em propostas que envolvam revisão de despesas obrigatórias, mudanças constitucionais, regulamentação da reforma tributária e medidas relacionadas ao equilíbrio das contas públicas.
Ao mesmo tempo, o crescimento da direita não implica necessariamente uma maioria parlamentar homogênea. Divergências entre partidos e lideranças, especialmente quanto a políticas econômicas, prioridades regionais e relações com o Executivo, poderão produzir diferentes composições a cada votação.
O novo Congresso Nacional terá, assim, uma característica central: enquanto a direita conquistou predominância numérica nas duas Casas, a governabilidade continuará condicionada à capacidade de formar coalizões parlamentares.


Reeleito para um quarto mandato, Lula terá pela frente um Congresso de composição mais favorável à direita, uma oposição fortalecida no Senado e uma base permanente insuficiente para assegurar maiorias. A construção de acordos com partidos de centro e centro-direita será determinante para o avanço de sua agenda legislativa a partir de 2027.