Dos 513 parlamentares eleitos, 301 conquistaram a reeleição, 183 exercerão o primeiro mandato e 29 retornarão ao Congresso. Nova composição amplia a presença feminina, registra redução da representação negra e indígena e reforça o peso dos partidos de direita e centro-direita nas negociações com o governo Lula.
Brasília, 04 de outubro de 2026 – As eleições de 2026 promoveram uma renovação de aproximadamente 35,7% na Câmara dos Deputados, mas preservaram a maioria dos parlamentares que já exerciam mandato. Dos 513 deputados federais eleitos em 4 de outubro, 301 conquistaram a reeleição, 183 chegarão à Casa para exercer o primeiro mandato e outros 29 são ex-deputados que retornarão ao Congresso Nacional após períodos fora do Legislativo.
O resultado confirma a capacidade de permanência dos parlamentares no cargo e revela uma renovação ligeiramente inferior à registrada em 2022, quando o percentual de novos deputados chegou a 39,3%. Os eleitos tomarão posse em 1º de fevereiro de 2027, para um mandato de quatro anos, até janeiro de 2031.
Entre os 437 deputados que disputaram a reeleição, levantamento da CNN Brasil apontou que 296 conseguiram renovar seus mandatos, o equivalente a 67,7%, enquanto 141 foram derrotados. Já o levantamento da Câmara dos Deputados, que considera os parlamentares eleitos para a legislatura em curso, além dos suplentes efetivados, identificou 301 reeleitos, correspondentes a 58,7% das cadeiras da próxima composição.
Embora apresentem diferenças metodológicas, os dois levantamentos indicam a predominância dos parlamentares que já integravam a Câmara, em um cenário de fortalecimento de algumas legendas e mudanças na distribuição das forças partidárias.
PL amplia representação e conquista maior bancada da Câmara
O Partido Liberal (PL) foi o principal destaque na distribuição das cadeiras, elegendo 121 deputados federais, o equivalente a 23,6% do total. A legenda ampliou em 24 cadeiras sua bancada em relação à eleição de 2022, conforme levantamento divulgado pela Câmara, e terá a maior representação de um partido na Casa desde 1990.
A segunda maior força será a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, que conquistou 88 cadeiras, seis a mais que na eleição anterior. Desse total, 70 pertencem ao PT, partido do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva.
Na sequência aparece a Federação União Progressista, integrada por União Brasil e PP, com 87 deputados. Embora mantenha uma das maiores representações da Casa, o agrupamento perdeu 18 cadeiras em comparação com o desempenho conjunto das duas legendas em 2022.
Entre os partidos que disputarão espaço nas articulações legislativas, o PSD elegeu 43 deputados; Republicanos, 41; MDB, 36; e Podemos, 27.
O Novo também registrou crescimento expressivo, passando de três para dez deputados eleitos, enquanto o PDT apresentou uma das maiores reduções de representação, passando de 16 para seis cadeiras, segundo a comparação divulgada pela Agência Senado.
A nova configuração mantém o predomínio numérico de partidos situados à direita e ao centro-direita, ao mesmo tempo em que amplia a bancada da federação liderada pelo PT. O cenário exigirá negociações do presidente Lula com diferentes forças políticas para a formação de maiorias parlamentares durante o quarto mandato.
Distribuição das bancadas eleitas para a Câmara em 2027
| Partido ou federação | Deputados |
| PL | 121 |
| Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV) | 88 |
| Federação União Progressista (União e PP) | 87 |
| PSD | 43 |
| Republicanos | 41 |
| MDB | 36 |
| Podemos | 27 |
| PSB | 15 |
| Federação PSOL-Rede | 15 |
| Federação PSDB-Cidadania | 11 |
| Novo | 10 |
| Federação PRD-Solidariedade | 7 |
| PDT | 6 |
| Avante | 5 |
| Missão | 1 |
| Total | 513 |
Fonte: TSE, Câmara dos Deputados e Agência Senado.
Renovação varia entre partidos e evidencia força dos parlamentares com mandato
A distribuição entre reeleitos e estreantes também apresentou diferenças significativas entre as legendas.
O PL foi o partido com o maior número absoluto de deputados reeleitos, com 63 parlamentares, além de 46 representantes que exercerão o primeiro mandato e 12 ex-deputados que retornarão à Casa.
Na Federação União Progressista, 58 parlamentares conquistaram a reeleição, enquanto a Federação Brasil da Esperança reelegeu 51 deputados. PSD, Republicanos e MDB também preservaram parte expressiva de suas bancadas, com 28, 26 e 23 reeleitos, respectivamente.
Proporcionalmente, o Novo apresentou uma das maiores taxas de renovação, com seis estreantes entre seus dez eleitos, o equivalente a 60%. O PV também registrou renovação elevada, de 57,1%, seguido pelo Podemos, com 48,2%.
Entre os partidos com pelo menos cinco cadeiras, o PDT apresentou uma das menores taxas de entrada de novos parlamentares, de 16,7%, seguido por Avante, com 20%, e PP, com 24,4%.
A permanência de deputados que já exercem mandato pode ser influenciada por fatores como reconhecimento eleitoral, presença regional, estrutura partidária e capacidade de mobilização de recursos. Os dados, contudo, não permitem atribuir o resultado a um único fator.
Entre os parlamentares que não conseguiram renovar seus mandatos estão Tarcísio Motta (PSOL-RJ), que recebeu 69,4 mil votos, após ter obtido aproximadamente 159,9 mil em 2022, e Maurício do Vôlei (PL-MG), cuja votação passou de 83,3 mil para 16,1 mil votos.
Nikolas Ferreira supera três milhões de votos e bate recorde histórico
As eleições também foram marcadas por recordes individuais de votação.
O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) conquistou 3.119.318 votos e tornou-se o deputado federal mais votado da história brasileira. O resultado representou mais que o dobro dos aproximadamente 1,47 milhão de votos recebidos pelo parlamentar nas eleições de 2022.
Em segundo lugar ficou Lucas Pavanato (PL-SP), vereador de São Paulo eleito para seu primeiro mandato na Câmara, com 3.038.438 votos.
A deputada Erika Hilton (PSOL-SP) alcançou 1.596.472 votos, tornando-se a mulher mais votada da história da Câmara dos Deputados. O resultado também a posicionou entre os três candidatos a deputado federal mais votados do país.
Outro destaque foi André Fernandes (PL-CE), reeleito com 684.372 votos.
As votações expressivas reforçam a relevância de lideranças com projeção nacional e forte presença nas redes sociais, embora o sistema proporcional brasileiro também dependa do desempenho coletivo das legendas e federações para a distribuição das cadeiras.
Bancada feminina atinge recorde, mas representação negra e indígena recua
A nova composição da Câmara também apresenta mudanças relevantes na representatividade de gênero e raça.
Pela primeira vez, a bancada feminina contará com 108 deputadas, o maior número da história da Casa. O resultado representa crescimento de 18,7% em relação a 2022, quando foram eleitas 91 mulheres.
Apesar do avanço, as mulheres ocuparão apenas 21,1% das cadeiras, percentual ainda inferior à sua participação na população brasileira.
Em sentido contrário, a representação de deputados autodeclarados pretos e pardos apresentou redução. Foram eleitos 135 parlamentares negros, correspondentes a 26,3% da Câmara, contra 139 em 2022.
O recuo ocorreu apesar da participação expressiva de candidatos negros no pleito. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as candidaturas de pessoas pretas e pardas representaram 49,6% do total de candidatos a todos os cargos disputados em 2026.
A representação indígena também diminuiu. Apenas três deputados federais autodeclarados indígenas conquistaram mandato, ante cinco na eleição anterior, reduzindo sua participação para aproximadamente 0,6% das cadeiras.
Entre os eleitos estão Paulo Guedes (PT-MG), Juliana Cardoso (PT-SP) e Sônia Guajajara (PSOL-SP), primeira ministra dos Povos Indígenas do governo Lula. Ao todo, 73 candidatos indígenas disputaram vagas para a Câmara dos Deputados.
Os resultados mostram que, embora a renovação tenha ampliado a participação feminina, persistem desafios relacionados à representação de segmentos sociais na composição do Legislativo federal.
Nova composição amplia desafios de articulação política do governo Lula
A distribuição das cadeiras terá consequências diretas para a relação entre o Executivo e o Legislativo durante o quarto mandato do presidente Lula.
Embora a Federação Brasil da Esperança tenha ampliado sua representação para 88 deputados, o número permanece distante das 257 cadeiras necessárias para formar maioria absoluta na Câmara.
Por outro lado, o PL, principal legenda de oposição ao governo, terá uma bancada de 121 parlamentares, posição que amplia sua capacidade de influência nas votações, nas comissões permanentes e nas disputas pela organização interna da Casa.
O papel dos partidos de centro e centro-direita, especialmente União Brasil, PP, PSD, Republicanos e MDB, será relevante na formação de maiorias para a aprovação de projetos de lei, medidas provisórias e propostas de emenda à Constituição.
Além das votações em plenário, o tamanho das bancadas influencia a distribuição de espaços na Mesa Diretora, nas presidências de comissões e na participação dos partidos nas negociações legislativas, observadas as regras regimentais e os acordos políticos.
A nova legislatura terá pela frente discussões relacionadas à implementação da reforma tributária, ao equilíbrio das contas públicas, ao Orçamento da União, às políticas sociais e aos compromissos assumidos durante a campanha presidencial.
Com uma Câmara que combina elevada permanência de parlamentares, crescimento de legendas conservadoras e maior representação feminina, o Congresso que tomará posse em fevereiro de 2027 deverá desempenhar papel central na definição dos rumos do próximo governo.
Para Lula, o desafio será transformar a vitória presidencial em capacidade de articulação parlamentar, em um ambiente no qual a ampliação da bancada governista não eliminou a necessidade de negociação com forças políticas de diferentes orientações ideológicas.