DESDE 2013

Entre a soberania e o servilismo

O constrangimento de buscar fora a legitimidade que falta dentro.

O discurso do senador Flávio Bolsonaro em Dallas (EUA) expõe uma das faces mais degradantes da política contemporânea: a disposição de setores da direita brasileira de submeter o destino nacional à chancela de uma potência estrangeira em troca de apoio para um projeto eleitoral. Não é apenas retórica de auditório. É um gesto simbólico de enorme gravidade institucional.

Ao apresentar o Brasil como peça estratégica para os Estados Unidos na disputa por minerais críticos e no enfrentamento à China, Flávio Bolsonaro não defendeu a soberania brasileira. Ao contrário, ofereceu o país como ativo geopolítico, quase como quem vende influência, território econômico e alinhamento automático em troca de respaldo político.

Há nisso um traço evidente de entreguismo e subserviência, incompatível com qualquer liderança que pretenda falar em nome do interesse nacional.

O ponto mais perturbador é a tentativa de transformar a política interna brasileira em tema de arbitragem estrangeira. Ao comparar Jair Bolsonaro a Donald Trump e sugerir que o “Bolsonaro 2.0” seria um aliado preferencial dos EUA, o senador não fala ao eleitor brasileiro, mas a uma elite política americana, buscando legitimação fora das urnas nacionais.

É a política reduzida à dependência.

Quem deseja governar o Brasil deve prestar contas ao povo brasileiro, às instituições republicanas e à Constituição — não buscar bênção em palcos do Texas.

A fala sobre classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, sob a lógica jurídica americana, amplia ainda mais a gravidade do episódio. Não porque o crime organizado não mereça combate duro, mas porque o enquadramento proposto abre espaço para justificar sanções, bloqueios e até ações extraterritoriais com impacto direto sobre a soberania do país.

É a perigosa lógica de quem, para derrotar adversários internos, aceita fragilizar os limites da autonomia nacional. Nenhuma democracia madura admite com naturalidade que atores políticos locais estimulem, ainda que indiretamente, a interferência de interesses externos em seu processo de poder.

O que se viu em Dallas foi menos um discurso político e mais um pedido de tutela internacional, algo incompatível com a grandeza histórica e estratégica do Brasil.

O país não precisa de candidatos que se apresentem como representantes preferenciais de Washington, Pequim ou qualquer outro centro de poder. Precisa de lideranças capazes de defender um projeto nacional soberano, altivo e independente.

Buscar apoio externo para vencer disputa interna não é força política. É sinal de fragilidade, dependência e profunda pobreza de projeto. O Brasil não pode ser governado por quem se dispõe a se ajoelhar antes mesmo de chegar ao poder.

Quem deseja governar o Brasil precisa, antes de tudo, responder ao Brasil — e não buscar fora aquilo que deveria conquistar aqui dentro: legitimidade, respeito e voto.

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