O Brasil vive uma crescente tensão diplomática e comercial com os Estados Unidos, às vésperas da entrada em vigor de um tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros a partir de 1º de agosto. O presidente norte-americano Donald Trump, de forma unilateral, tem dificultado a abertura de canais de negociação com o governo brasileiro. Segundo interlocutores de Lula, Trump não autorizou sequer a Casa Branca a manter diálogo oficial com Brasília.
Em resposta, uma comitiva formada por oito senadores, entre eles Jaques Wagner (PT-BA), Tereza Cristina (PP-MS) e Nelsinho Trad (PSD-MS), embarcou nesta sexta-feira (25) para Washington. A missão, entretanto, é boicotada pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que, mesmo ausente do Brasil e afastado das atividades legislativas, se autoproclama o único interlocutor legítimo com os EUA e tem criado atritos até com aliados do agronegócio e do centrão.
O clima esquentou ainda mais após o presidente Lula afirmar em evento em Minas Gerais que “aqui ninguém põe a mão”, em referência ao interesse dos EUA em minerais estratégicos como lítio, nióbio e terras raras. O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, atrás apenas da China, o que amplia o interesse norte-americano em firmar acordos comerciais com o setor mineral brasileiro, enquanto o impasse tarifário se aprofunda.
Paralelamente, o governo brasileiro e entidades do setor produtivo tentam estimar os prejuízos econômicos do tarifaço. Estima-se que 10 mil empresas serão impactadas, com destaque negativo para o setor agroexportador, especialmente sucos cítricos, carnes e frutas frescas como a manga. A CitrusBR alertou que a sobretaxa elevará em mais de 500% o custo do suco de laranja exportado, tornando o produto inviável no mercado americano. O setor pesqueiro também teme perdas irreparáveis, já que 70% das exportações são destinadas aos EUA e não há mercados alternativos no curto prazo.
Internamente, Lula anunciou nesta sexta-feira investimentos de R$ 4,7 bilhões em urbanização de favelas, dentro do programa Periferia Viva. Também sancionou, com vetos parciais, a lei que regulamenta o empréstimo consignado para trabalhadores do setor privado, incluindo trabalhadores de plataformas digitais. A medida pode ampliar em até três vezes o volume de crédito disponível, segundo projeções do governo.
Por outro lado, o governo enfrenta críticas de servidores públicos por portaria do MGI que permite contratações temporárias a partir do banco de aprovados no CNU, vista como uma “reforma administrativa disfarçada”. O cenário fiscal também exige atenção: enquanto o Congresso promete cortar subsídios, aprovou novo incentivo bilionário ao esporte, ampliando deduções no imposto de renda.
A crise institucional também se manifesta no Judiciário. O senador Marcos do Val (Podemos-ES), investigado por tentativa de golpe, viajou aos EUA mesmo com passaporte diplomático apreendido por ordem do STF. Já o ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado a pagar R$ 150 mil por danos morais por fala ofensiva sobre venezuelanas. No Congresso, propostas radicais de seus aliados continuam sendo contidas por líderes do centrão, enquanto seu filho, Eduardo Bolsonaro, vive nos EUA sem justificativa formal para suas ausências.
No plano internacional, a Corte da ONU emitiu parecer histórico afirmando que países têm obrigação legal de combater as mudanças climáticas e indenizar nações afetadas — decisão que pode impactar diretamente a COP30 no Brasil. Ambientalistas pressionam Lula a vetar integralmente projeto aprovado pelo Congresso que flexibiliza o licenciamento ambiental.
Por fim, a prévia da inflação subiu para 0,33% em julho, puxada pelo aumento na conta de luz, e os Correios suspenderam licitação de R$ 380 milhões devido à crise financeira. Enquanto isso, o Brasil amplia vendas para a Argentina, que cresceram 55% no primeiro semestre, com destaque para carnes e veículos.
O governo Lula encontra-se em uma situação paradoxal, navegando por um dos períodos economicamente mais desafiadores desde o início de seu mandato, ao mesmo tempo em que desfruta de seu momento político mais forte.
As rivalidades geopolíticas, as pressões econômicas e as contradições internas estão criando um ambiente complexo. No entanto, os índices de aprovação do governo estão em ascensão, e as ações de Donald Trump que se alinham à ideologia bolsonarista estão se mostrando um ativo eleitoral valioso.