DESDE 2013

Como o governo pode impulsionar as atividades empresariais

Por Antônio Augusto de Queiroz (*)

* Artigo publicado no Anuário do Executivo Brasil 2026. A versão impressa está à venda na Livraria ConJur (clique aqui). Acesse a versão digital pelo site do Anuário da Justiça (anuario.conjur.com.br).

A relação entre Estado e mercado é um dos pilares centrais para o desenvolvimento de qualquer nação no regime capitalista. Apesar da visão neoliberal apontar o Estado como um “problema”, não há exemplo de país que tenha se desenvolvido sem que essa relação tenha sido observada, e o Estado atuado na promoção do desenvolvimento.

No Brasil, um país de dimensões continentais e complexidades sociais únicas, entender essa dinâmica é fundamental para desbloquear o potencial econômico e promover um crescimento sustentável e inclusivo. A estrutura do Estado Moderno, com seus monopólios legítimos de legislar, tributar e punir, além de defender a soberania, confere ao poder público um papel indutor e regulador indispensável. No entanto, é na interface com a iniciativa privada — o motor da geração de riqueza, inovação e empregos — que se constrói o caminho para a prosperidade.

O objetivo deste texto é explorar os mecanismos pelos quais o governo pode impulsionar as atividades empresariais, estimulando o desenvolvimento econômico, e detalhar como se dá a interação prática entre o poder público e a iniciativa privada. Partindo da base conceitual do Estado, passando por sua organização político-administrativa e adentrando a lógica do processo decisório, buscaremos demonstrar que, longe de serem antagonistas, Estado e mercado são atores complementares cuja cooperação é vital para o futuro do país.

O Estado como indutor do desenvolvimento

O Estado Moderno não é um fim em si mesmo, mas uma construção civilizatória destinada a organizar a vida em sociedade. Seus monopólios — de legislar, tributar e punir — são ferramentas que, bem aplicadas, criam o ambiente para a economia florescer.

Poder de legislar e a segurança jurídica: A prerrogativa de editar leis universais é a base para a segurança jurídica, um dos bens mais valiosos para investidores e empreendedores. Um marco regulatório claro, previsível e estável reduz incertezas, permite o planejamento de longo prazo e atrai investimentos. A atuação do Poder Legislativo, portanto, vai muito além da criação de leis; é sobre estabelecer regras que garantam um ambiente de competição saudável.

Poder de tributar e o fomento seletivo: O monopólio da tributação é a principal fonte de recursos para o Estado fornecer bens públicos e implementar políticas de desenvolvimento. No entanto, a carga tributária deve ser equilibrada e racional. O governo pode impulsionar setores específicos por meio de incentivos fiscais, desonerações seletivas e tratamentos diferenciados para micro e pequenas empresas, estimulando a inovação e a geração de empregos.

Poder de punir e a defesa da concorrência: O uso legítimo da força, delegado a instituições como a Polícia Federal e as Forças Armadas, garante a ordem pública, a integridade territorial e a segurança patrimonial, condições básicas para o funcionamento dos negócios. Além disso, por meio de agências reguladoras e órgãos de defesa da concorrência, o Estado atua para coibir abusos de poder econômico e práticas anticoncorrenciais, assegurando um mercado dinâmico e competitivo.

Poder de tributar e o fomento seletivo: O monopólio da tributação é a principal fonte de recursos para o Estado fornecer bens públicos e implementar políticas de desenvolvimento. No entanto, a carga tributária deve ser equilibrada e racional. O governo pode impulsionar setores específicos por meio de incentivos fiscais, desonerações seletivas e tratamentos diferenciados para micro e pequenas empresas, estimulando a inovação e a geração de empregos.

Poder de punir e a defesa da concorrência: O uso legítimo da força, delegado a instituições como a Polícia Federal e as Forças Armadas, garante a ordem pública, a integridade territorial e a segurança patrimonial, condições básicas para o funcionamento dos negócios. Além disso, por meio de agências reguladoras e órgãos de defesa da concorrência, o Estado atua para coibir abusos de poder econômico e práticas anticoncorrenciais, assegurando um mercado dinâmico e competitivo.

Máquina pública em ação

A organização do Poder Executivo Federal, com seus ministérios e entidades vinculadas, é a arena onde os planos de desenvolvimento e as políticas de fomento são concebidos e executados. Para o empresário, entender essa estrutura é fundamental para navegar com sucesso.

Ministérios sistêmicos e setoriais: Alguns ministérios possuem um papel transversal e fundamental para as decisões econômicas. A Casa Civil atua como o principal coordenador do governo, arbitrando conflitos e alinhando as ações ministeriais. O Ministério da Fazenda gerencia a política macroeconômica, enquanto o Ministério do Planejamento controla o ciclo orçamentário. Já o Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos é responsável pela modernização da máquina estatal.

Agências reguladoras: Autarquias especiais, como as que atuam nos setores de energia, telecomunicações e transportes, desempenham duplo papel. Por um lado, regulam e fiscalizam setores estratégicos, protegendo os interesses dos consumidores. Por outro, sua atuação técnica e previsível fornece a segurança regulatória necessária para que a iniciativa privada faça investimentos de longo prazo.

Advocacia pública: A Advocacia Geral da União (AGU) é peça-chave na segurança jurídica. Ao assessorar o Poder Executivo e defender a constitucionalidade dos atos governamentais, ela ajuda a formatar contratos, parcerias e políticas públicas de modo a evitar futuros litígios, conferindo solidez aos atos administrativos. Está presente em todos os órgãos, por intermédio das consultorias e procuradorias jurídicas.

Canas de diálogo

A interação entre governo e iniciativa privada não é um fenômeno aleatório. Ela ocorre por meio de canais formais e informais, cuja institucionalização é sinal de maturidade democrática.

Conselhos e câmaras setoriais: Fóruns como o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável são espaços de diálogo entre o governo e segmentos da sociedade, incluindo o empresarial. Neles, são debatidas grandes diretrizes para o país, com a participação de representantes de interesses e setores da sociedade.

Consultas públicas: Muitas agências reguladoras e ministérios utilizam consultas e audiências públicas para colher subsídios da sociedade antes de editar normas importantes. Esta é uma ferramenta vital de transparência e qualidade regulatória.

Relações institucionais e governamentais: A atividade de lobby, também conhecida como RIG, é uma prática legítima e necessária em qualquer democracia. Ela consiste na representação de interesses perante o poder público, fornecendo informações técnicas e especializadas aos formuladores de política e contribuindo para a formação das políticas públicas.

Processo decisório

Um dos maiores desafios para o setor privado é compreender a lógica do processo decisório governamental, que é radicalmente diferente da lógica empresarial. Enquanto a empresa busca a eficiência e o lucro, o Estado deve ponderar equidade, legalidade, interesse público, promovendo, quando necessário, medidas anticíclicas, e buscar a sustentabilidade fiscal.

A distinção entre o comando político (ministros, secretários) e o comando técnico-burocrático (servidores de carreira) explica a complexidade do processo decisório intragovernamental. Muitas vezes, uma proposta pode ter aceitação política, mas esbarrar em obstáculos técnico-jurídicos levantados por assessores ou dirigentes nas secretarias, departamento e coordenação ou, principalmente, na consultoria jurídica. Por isso, uma estratégia de influência bem-sucedida deve envolver tanto a construção de relacionamento com as autoridades políticas quanto a apresentação de argumentos técnicos sólidos e embasados legalmente para convencer a burocracia especializada.

Conclusão

Impulsionar as atividades empresariais e elaborar planos e políticas para estimular e promover o desenvolvimento econômico não é uma tarefa simples, mas é perfeitamente possível quando há compreensão clara dos papéis de cada ator e dos mecanismos de interação disponíveis.

O governo, por meio de seu poder de Estado, deve focar em:
1. Oferecer segurança jurídica e macroeconômica, com regras claras e um ambiente de previsibilidade.
2. Investir em infraestrutura e bens públicos que aumentem a produtividade do setor privado, ou incentivar e apoiar o investimento privado, por meio de parcerias, concessões e permissões e instrumentos de fomento.
3. Promover uma regulação inteligente e eficiente, que promova a concorrência e proteja o consumidor e usuário sem asfixiar a atividade empresarial, e incentive a inovação.

A iniciativa privada, por sua vez, deve:
1. Assumir seu papel de agente do desenvolvimento, investindo, inovando e gerando empregos de qualidade, observando os direitos e garantias dos trabalhadores.
2. Atuar com ética e responsabilidade social e ambiental, entendendo que seu sucesso está intrinsecamente ligado ao bem-estar da sociedade.
3. Engajar-se de forma construtiva com o poder público, fornecendo dados, estudos e propostas técnicas que enriqueçam a formulação de políticas.

A sinergia entre um Estado ágil, estratégico e focado em resultados para a sociedade, e uma iniciativa privada dinâmica, inovadora e socialmente responsável, é a fórmula mais poderosa para construir um Brasil mais próspero, justo e desenvolvido.

(*) Jornalista, consultor, analista político e mestre em políticas públicas e governo pela FGV. Foi direto de documentação do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar). É membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da Presidência da República – Conselhão. Especialista em instituições políticas e processo legislativo, é autor de diversos artigos e livros sobre a dinâmica do poder no Brasil.

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